Falta de fé é “o maior de todos os males”

Postado por: Daniel Sottomaior Tags: Atea | Categorias: Dia a dia

maio
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Essa foi a afirmação do cardeal Cormac Murphy-O’Connor, que também culpou o ateísmo pela guerra e pela destruição, subentendendo que ele é um mal maior do que o próprio pecado. A declaração ocorreu durante a cerimônia que de posse do novo arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, que foi o clérigo que recentemente enalteceu a coragem dos padres irlandeses “que enfrentaram esses fatos do seu passado”, referindo-se à existência de milhares de crianças abusadas sexualmente por religiosos. A denúncia está contida em relatório da suprema corte do país à Comissão para Investigação de Abusos contra Crianças (veja aqui).Nichols também afirmou que o relatório ameaçava fazer sombra a todo o bem feito por ordens religiosas.

Mas voltemos ao cardeal. Falando sobre as batalhas que serão ganhas ou perdidas para manter a presença cristã em uma sociedade secular, ele afirmou “o mais importante é a oração que expressamos todo dia no Pai Nosso quando duzemos ‘livrai-nos de todo mal’. O mal do qual pedimos para ser livrados não é essencialmente o mal do pecado , pois isso está claro, mas na mente de Jesus é mais importante a perda da fé. Para Jesus, a incapacidade de acreditar em Deus e de viver pela fé e o maior dos males. As coisas que resultam disso são uma afronta à dignidade humana, destruição da confiança entre os povos, a regra do egoísmo e a perda da paz. Não é possível haver verdadeira justiça, verdadeira paz, se Deus não tem sentido para as pessoas.”

Ou seja, os ateus são culpados do maior de todos os males, e impedem a verdadeira paz e a verdadeira justiça. Mas isso é exatamente o que se espera de indivíduos… menos que humanos. Eis a transcrição de um trecho de uma entrevista do cardeal Murphy-O’Connor à BBC:

Roger Bolton: O senhor se referiu aos secularistas dizendo que eles têm um entendimento empobrecido do que é ser humano. Ateus podem achar isso ofensivo, não?

Cardeal Murphy-O’Connor: Acho que o que eu disse é verdade. É claro, se o indivíduo é ateu ou outra coisa, essa é, na verdade, a minha opinião. Algo que não é totalmente humano. Se eles tiram o transcendente. Se eles tiram o que eu acredito que é aquilo para o que todos foram feitos, que é uma busca por significado transcendente, que nós chamamos de Deus.Os ateus dizem que isso não tem lugar, mas eu acho que isso é um apequenamento do que é ser humano, pois para ser humano, no sentido em que eu acredito, a humanidade é dirigida porque é criada por Deus. Acho que se deixarmos isso de fora, então você não é plenamente humano. 

 

Para quem não percebeu, casos como o da OAB-AL, reportados dias atrás nesta coluna, não são apenas encorajados pela postura religiosa: eles vêm dos mais altos representantes da religião. E, como se pode adivinhar, isso não acontece só nas distantes terras europeias. Em 17 de novembro de 2003, o cardeal arcebispo de São Paulo, Cláudio Hummes, divulgou uma nota sobre a violência em que dizia:

 As causas da violência são muitas. Por detrás de todas, está o pecado, que é

falta de amor a Deus e ao próximo, é egoísmo, individualismo, ambição de

acumular bens materiais, desrespeito pela dignidade do ser humano e pela

propriedade alheia, desrespeito à vida humana, vontade de poder e de

prestígio. O povo diz com simplicidade e muito acerto: “A causa da violência

é a falta de religião”. Com certeza, a carência de valores religiosos,

espirituais e morais, na sociedade, nas famílias e na vida individual

contribui muitíssimo para a violência. Outras causas são a superlotação

carcerária, o tráfico e o consumo da droga, o desespero por não ter trabalho

e ser obrigado a viver na miséria, o alcoolismo. Mas uma das causas maiores

da violência é a impunidade dos criminosos. Também nas famílias muitas vezes

há violência, falta o diálogo entre pais e filhos e falta educação para o

amor e a solidariedade. 

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Alagoas, portanto, só ecoou as afirmações “do povo”, de Cláudio Hummes e de outros líderes da Santa Madre Igreja. Na época, o Observatório da Imprensa publicou o artigo “O Homem Invisível”, escrito pelo atual presidente da Atea, em que denunciava a afirmação ultrajante do cardeal e apontava outras de teor quase idêntico vindas de fontes insuspeitas como Adolf Hitler. Desnecessário dizer que apontar preconceito contra os ateus é uma atitude que sempre passou em brancas nuvens — ao menos até a criação desta entidade.

 Se você quer dizer aos líderes da igreja católica brasileira o que pensa sobre as declarações dos seus mais eminentes membros, estes são os seus principais nomes:

 

Cardeal Geraldo Magella Agnello, arcebispo primaz do Brasil 

Cardeal Cláudio Hummes, prefeito da Congregação do Clero na Sé de Roma

Cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo

Cardeal Eusébio Oscar Scheid

Arcebispo Geraldo Lyrio Rocha, presidente da CNBB

Arcebispo Luiz Soares Vieira, vice-presidente da CNBB

Bispo Dimas Lara Barbosa, secretário-geral da CNBB

José Luiz Majella Delgado, subsecretário Adjunto Geral da CNBB

 

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