Saindo do armário.

Postado por: Marwan Machado Khalil Tags: Atea | Categorias: Depoimentos

outubro
23

Bem, como muitos outros ateus, nasci no meio de uma família completamente religiosa. Inicialmente temos meu avô por parte de pai, islâmico, mas que por sorte não seguia completamente suas crenças, levando-o a casar com minha avó, uma cristã. Meu pai, dividido entre as questões do mundo islâmico e do cristianismo, optou pela segunda opção ao casar-se com minha mãe, que influenciou-o a frenquentar a igreja protestante. Minha mãe sempre foi muito devota ao cristianismo, mas nunca foi extremamente fundamentalista, pois a igreja que ela e meu pai frequentam desde que eu nasci é uma vertente um pouco amena do protestianismo (pregam um deus de amor, mas mesmo assim um deus que faz justiça). Por conta disso, ela criou fortes vínculos filosóficos e morais com a sua fé. Já meu pai, vê deus com um pouco mais de racionalidade, creio que ele crê mais na fé do que em deus propiamente dito.

Tendo isso em mente quando finalmente eu percebi que era ateu, aos 16 anos, sabia que seria complicado sair do armário, temia demais as consequências. Minha mãe, por mais que me ame muito, possuí laços muito fortes com a sua religião e meu pai, por mais que tenha divergido de suas crenças fraternas, amava minha mãe e certamente ficaria do lado dela. Um ano se passou (e com ele algumas dezenas de horas perdidas com cultos dominicais) e decidi revelar a minha descrença em deus. Foi tão complicado quanto eu imaginei. Não, minha mãe não me expulsou de casa, sequer ficou brava comigo. Mas ficou tremendamente devastada, e nada que eu falasse impedia ela de chorar quanto refletia sobre seu filho indo para o inferno. Meu pai, julgava sim que a culpa era minha, mas não o culpo, ninguém suporta ver a mulher devastada. Ambos eram vitimas da religião, nunca os culpei. Fui obrigado até os 18 anos a continuar indo na igreja, e por respeito aos meus pais, não revelei para ninguém além de meus irmãos e meus amigos da igreja. Todos ficaram chocados, mas não me julgavam tanto quanto esperava, o que parecia promissor.

Hoje, quase um ano e meio após deixar de ir na igreja, minha mãe ainda sente a perda de seu filho para o mundo, mas já aceita muito mais do que no passado (as ondas de tristezas agora surgem apenas em suas preces por minha alma) e conseguimos até mesmo conversar sobre sem que ela comesse a chorar. Meu pai, como minha mãe já quase superou, deixou de me pressionar para que eu fosse à igreja pela minha mãe e aceita perfeitamente a minha posição. Mesmo assim, até um mês atrás eu tinha dificuldades de falar para as pessoas que eu era ateu, até mesmo para aquelas que já sabiam disso. Então li aquele livro genial do Richard Dawkins que todos conhecem (nem preciso citar). Foi muito revelador, principalmente quanto a parte de se posicionar contra essa imposição por parte da sociedade de que ser ateu é algo ruim. Agora, cada vez mais assumo uma posição forte quanto ao meu ateísmo, mesmo que isso me imponha algumas dificuldades sociais. Já percebo as diferenças, estou muito mais feliz e confiante, pois já não me sinto enclausurado.

Existem diversas outras barreiras a serem quebradas e por isso pretendo cada vez mais me engajar no movimento ateísta, mostrando para a sociedade que não sou um monstro, mas sim um cidadão que tem muito a oferecer para a sociedade. Convido todos aqueles que ainda estão escondido a sair do armário, pois a despeito das dificuldades que enfrentarão, a gratificação pessoal será imensa. Um abraço!

Marwan Machado Khalil
marwan_nh@hotmail.com

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