O ateu na escola, parte II

Esta é a continuação dos posts de 15 e 24 de março.

A escola não cessou as orações, de maneira que a Atea enviou duas notícias-crime e uma representação ao Ministério Público Estadual, além de uma denúncia à Secretaria Estadual de Educação de MG. As peças estão disponíveis em http://advogado.pro.br/ATEA.htmAguardamos ansiosamente o pronunciamento das autoridades.

Atea, ateus e religiosos

Os contatos que há tempo venho estabelecendo com grupos de religiosos para lutarmos juntos pela laicidade do Estado vêm se aprofundando e gerando frutos importantes. Meu contato com a Associação Brasileira de Liberdade Religiosa e Cidadania, por exemplo, levou à criação da câmara setorial de ateísmo dentro da Ablirc, em 2007, em evento na Câmara Municipal de Diadema em que tive a oportunidade de fazer um breve pronunciamento. A existência de uma entidade que abre espaço para ateus é sem dúvida um momento histórico que deve ser celebrado.

 Mas isso não é tudo. Na semana passada, fui incluído na diretoria da Ablirc, e no grupo que está redigindo uma carta de liberdade religiosa. Em breve a Atea participará da ação contra a Concordata com o Vaticano, conforme anunciamos aqui, e um alto membro da Igreja Metodista me fez a gentileza de enviar a posição oficial da entidade a respeito da concordata, que a Atea divulga com exclusividade. E finalmente, hoje compareci ao Colóquio sobre liberdade religiosa organizado pela secretaria de justiça de São Paulo, em que fiz um apelo para que o órgão, que possui um fórum inter-religioso e promova fóruns inter-religiosos, inclua também os ateus. Os representantes da secretaria afirmaram que meu pedido seria atendido. O futuro não poderia ser mais bright.

O caso de Aimorés

A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos enviou hoje um ofício à Escola Estadual Frei Afonso Maria Jordá, de Aimorés (MG), onde estuda o menor D.G.B., que postou um vídeo no Youtube denunciando o fato de que sua escola promove orações diárias dentro da sala de aula e em horário de aula. O rapaz acabou na diretoria por se recusar a reverenciar um deus em que não acredita. Sentindo-se humilhado, não quis mais assistir as demais aulas do dia. Na semana seguinte, ele postou novo vídeo mostrando o momento da oração.

No ofício, a Atea apresenta brevemente de que maneira a escola está afrontando o ordenamento jurídico brasileiro, e requisita que cessem as orações. Depois de intenso trabalho da diretoria e dos advogados que nos assistem, foram redigidas denúncias civis e criminais a serem entregues ao Ministério Público Estadual de Minas Gerais, assim como uma denúncia à Secretaria Estadual de Educação, que serão protocoladas nos próximos dias caso a escola mantenha as orações.

Não ver diferença entre todas as religiões é ateísmo


Relativamente à religião, pensar que é indiferente tenha ela formas disparatadas e contrárias equivale simplesmente a não querer nem escolher nem seguir qualquer delas. É o ateísmo menos o nome. Efetivamente, quem quer que creia em Deus, se for conseqüentemente e não quer cair no absurdo, deve necessariamente admitir diferença, disparidade e oposição, mesmo sobre os pontos mais importantes, não podem ser todos igualmente bons, igualmente agradáveis a Deus.”

 Carta encíclia Immortale Dei, de Leão XIII.

Estupra, mas não aborta!

tirada do kibeloco, que nos lembra a semelhança da convicção católica com a gafe malufista, explora uma pequena fração do festival de absurdos promovido pela religião e pelos religiosos no caso da menina de nove anos grávida de gêmeos depois de ser estuprada pelo padrasto em Pernambuco. A novela que se desenrolou em poucos dias merece uma longa análise sociológica para cada um dos seus episódios. Vamos a uma apertada sinopse:

No capítulo primeiro, o pai da menina se diz contrário ao aborto. O motivo? Ele é evangélico. A população não se manifesta sobre a posição dele.

No capítulo dois, o bispo José Cardoso Sobrinho anuncia que estavam excomungados a mãe da menina e a equipe médica envolvida no aborto — mas não o padastro estuprador. É aqui que o folhetim se torna campeão de ibope com o sentimento generalizado de revolta dos espectadores com o fato de o bispo não ter feito absolutamente nada além de anunciar as já conhecidas disposições do código canônico da igreja. Ou seja: o que se espera do próprio bispo é que ele não siga à risca aquilo que preconiza. É um lance clássico do duplipensar religioso, com longa história na negação das disposições neolíticas do antigo testamento, como apedrejar adúlteros, homossexuais e crianças desobedientes.

No capítulo três, o bispo se justifica falando no “holocausto silencioso” que são os 50 milhões de abortos anuais, e o mistério se aprofunda: a se seguir a analogia, por que é que nem o Führer e nem um único comandante da SS foi excomungado pelo holocausto de verdade? Para aplacar os ânimos mais questionadores, Sobrinho esclarece: “A Igreja é muito benévola com os menores.” Para quem não é versado em teologia, essa benevolência se refere ao fato de a menina não ter sido excomungada também. Entenderam?

Nem todo mundo entende, então no capítulo quatro o bispo esclarece que “a lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Então, quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor.” Após essa reafirmação de compromisso com a laicidade do Estado e os mais altos valores democráticos, tudo se começa a voltar à normalidade.

No capítulo quatro, a igreja apóia o bispo, mas num segundo momento se encaminha ao final feliz ao fazer o que os espectadores esperavam desde o começo: negar parcialmente suas disposições anteriores, desautorizando a excomunhão da mãe da menina. A excomunhão dos médicos e a não-excomunhão do estuprador permanecem, mas a opinião pública precisava de algum atenuante, e aí está a grandeza da igreja, em toda sua magnificência. A audiência respira aliviada porque suas contradições podem permanecer intactas: a religião é mesmo boa, apesar de ter de negar seus princípios para sê-lo, e tudo fica bem.

No capítulo cinco, já depois do clímax, as declarações do bispo voltam em toda sua plenitude em entrevista às páginas amarelas da Veja:

Se o senhor ficasse frente a frente com a menina, o que diria a ela?
Eu diria: o que aconteceu já passou. Daqui para a frente, procure praticar a
religião com os meninos da sua idade, ir para a igreja e aprender o catecismo.
Seria tão bom se as criancinhas fossem como antigamente, quando nem tinham uso
da razão mas já sabiam rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria.

Se encontrasse o padrasto que a violentou, o que diria a ele?
Eu iria procurar convertê-lo.

 Ou seja: se vocês se tornarem bons católicos, esta história terá terminado da melhor maneira dentro do possível. Bom mesmo era quando a religião era inculcada em todas as mentes indefesas, tão fundo que nunca mais haveria volta. Negros são estes tempos em que algumas pessoas insistem em educar seus filhos a pensar antes de crer. Assim, onde vamos parar?

O ateu na escola

vídeo é auto-explicativo. A Atea já mobilizou seus advogados, que estão estudando a questão. Tudo indica que devemos entrar com uma representação ao Ministério Público Estadual, e denúncias ao conselho tutelar e à secretaria estadual de educação. Em breve teremos mais notícias.

Fração de americanos sem religião duplicou desde 1990

Acreditem se quiserem. De acordo com matéria em um site português,

“O número de agnósticos, ateus ou de pessoas que não se identificam com qualquer confissão religiosa duplicou neste período e representa hoje 15 por cento dos norte-americanos, o equivalente a 4,7 milhões de pessoas. Metade serão agnósticos e metade ateus, refere o estudo. Em 1990, eram apenas 8,2 por cento e em 2001, data em que este estudo foi feito pela segunda vez, 14,1.
 
Por outro lado, o número de americanos que se identificam como cristãos baixou de 86 para 76 por cento. Com o crescimento dos católicos e, sobretudo, dos evangélicos, foram os protestantes ‘tradicionais’ quem pagou a factura desta descida.”

O fenômeno foi semelhante no Brasil entre os censos de 1990 e 2000. Resta saber o que ocorreu na última década.

Juiz nega indenização de R$ 500 mil a evangélicos

Segundo a notícia do Correio BrazilienseEurípedes José de Farias, Ivo Dionísio da Cruz, Francisco de Assis Monteiro da Silva e José Vieira da Silva solicitaram o pagamento de R$ 500 mil, cada um, “a título de reparação, por terem sido tratados com discriminação diante da promulgação da Lei Distrital 2.908/2002, que instituiu Nossa Senhora da Glória como padroeira de Ceilândia, além da fabricação de uma estátua da santa”.

O que à primeira vista tem tudo para ser uma louvável luta pela laicidade infelizmente parece provir de intenções bem menos nobres. Farias é presidente e fundador do partido progessista cristão, ainda em formação. Na página do PPC sobre seu presidente, lê-se:

  •  “O Partido Progressista Cristão terá um presidente da República para tirar o Brasil da crise social com as lições dos grandes mártires da Bíblia”
  • “Acreditamos em um presidente eleito pelo PPC, pois a questão social está baseada na desigualdade da sociedade, uma vez que a maioria da população é pobre de bens materiais e espirituais.”
  • “A crise social existente no Brasil será atacada pelo futuro presidente do Brasil eleito pelo PPC, haja vista que os brasileiros vivem em crise social e espiritual desde a colonização.”
  • “a causa principal de todas essas desordens sociais e espirituais em que vivemos é fruto, também, do pecado que precisa ser trabalhado.”
  • A prática da corrupção, sem dúvida, é fruto de uma cultura sem Deus.”
  • “Quantos desses indivíduos fazem pactos com o príncipe das trevas para se eleger trazendo conseqüências gravíssimas na área social, pois esta satanização leva os governados à decadência moral e espiritual, porque o inimigo veio para matar, roubar e destruir. O presidente eleito pelo PPC buscará o resgate dos brasileiros das garras desses opressores com sabedoria dos grandes estadistas descrita na Bíblia. Porque não basta apresentar planos econômicos sem cuidar da saúde espiritual, pois, se quisermos que o nosso País passe mais 500 anos sobre a servidão basta deixá-lo como está sendo governado por cegos.”
  • “As orações dos brasileiros já chegaram aos Céus, pois o José do Egito brasileiro já está entre nós, ele será eleito pelo PPC para presidente da República e trará a nova visão, uma nova forma de governar esta nação.”
  • “Quando um homem governa e este tem comunhão com Deus o povo tem sossego e prosperidade, pois Deus é com o governante e este por sua vez é com os governados. Foi assim com Moisés que por 40 anos andando no deserto, aquela nação não plantava, não comprava e não vendia, e não lhes faltava o que comer. Suas roupas não rasgavam.”
  • “Nesse momento passo a pedir a participação financeira de mais filhos de Deus nesta organização. Tenho sido abençoado por investir neste partido, pois Jesus o Cristo é o Patrono do mesmo e espero que você também seja abençoado quando entender que esta é também uma obra que conta com as bênçãos do Pai.”

 Ou seja: trata-se de mais um religioso que vê os ateus como maus e não deseja um governo laico, mas cuja motivação e diretriz de ação é rasgadamente teológica.

E o que os demais evangélicos acham disso tudo? Eles também não vêem problema nenhum com a institiução da santa, segundo relata o Correio. É difícil imaginar como as coisas poderiam estar mais erradas do que isso.

Não em meu nome!

Esse é o título da campanha argentina de ateísmo e rejeição à ICAR, noticiada até no Estado de S. Paulo. Dezenas de organizações participam, de grupos de mulheres a favor da descriminalização do aborto até coletivos homossexuais, iincluindo a Associação de Ateus da Argentina, ArgAtea.

Um imperdível cartum na página principal do site da iniciativa, www.apostasiacolectiva.org, deixa clara a inspiração para o nome. A alguns pode parecer uma manifestação de anticlericalismo ou de ateísmo, mas não é, embora possa coincidir em objetivos com ambos. A motivação principal é a de laicidade e secularismo:

Temos em comum a negação às imposições da Igreja Católica argentina sobre a vida pública e provada de todos os cidadãos, tanto católicos como não católicos. Apostatar é uma das muitas formas queos batizados têm para manifestar seu dsacordo e repúdio público com relação a essa instituição e deixar claro que não nos representam nem falam em nosso nome. Sem dúvida, não consideramos que seja a única legítima, nem a melhor. Uma marcha, uma pintura, uma reflexão, a memória dos genocídios que a instituição apoiou e apoia, a luta pela autonomia sobre nossos corpos e nossas vidas, são outras tantas práticas cotidianas de liberdade.



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