Perguntas e Respostas





Ateísmo e Agnosticismo

1. Definições
2. Conteúdo
3. Ateísmo e religião
4. A associação


1. Definições

1.1 O que é ateísmo?
Existem várias definições para ateísmo. Adotamos a definição mais abrangente, que reflete a etimologia da palavra: ateísmo é qualquer forma de ausência de teísmo -- ou seja, ateísmo é a ausência de crença em quaisquer divindades.

1.2 O que é agnosticismo?
Também existem várias definições para agnosticismo. A definição que adotamos reflete a etimologia da palavra. O radical gnosis significa conhecimento; assim, agnosticismo é a afirmação de desconhecimento a respeito da veracidade de uma proposição. Em outras palavras, o agnóstico afirma que a questão da existência de divindades ainda não foi decidida, ou não pode ser decidida. A rigor, o agnosticismo pode se referir a qualquer afirmação, mas em geral a palavra se refere a idéias metafísicas, particularmente à existência de deuses.

1.3 Todo agnóstico é ateu?
Segundo as definições que adotamos, sim. Todos os ateus, agnósticos ou não, rejeitam o teísmo: os agnósticos porque entendem que a questão não está decidida, e os demais porque entendem que ela já foi decidida contra o teísmo. No entanto, quem se identifica como ateu em geral adota uma forma não agnóstica de ateísmo.

2. Conteúdo

2.1 O que prega o ateísmo?
Nada. Ao contrário das religiões organizadas, o ateísmo não possui textos sagrados ou hierarquia. O ateísmo não é e nem possui uma doutrina e portanto a única coisa que todos os ateus têm em comum é a ausência de crença em deuses.

2.2 Todo ateu é anti-religioso?
Não. Há ateus que vêem a religiosidade positivamente, outros a entendem como uma posição inofensiva, e há aqueles que vêem a religião como um mal. Infelizmente não há dados confiáveis para saber qual a proporção de cada um.

2.3 Todo ateu é... [acrescente aqui o adjetivo de sua preferência]?
Não. Vide pergunta 2.1.

2.4 Todo ateu crê que...[acrescente a crença de sua preferência]?
Não. Vide pergunta 2.1.

2.5 Por que alguém se torna ateu?
Essa pergunta só faz sentido para muitas pessoas porque atualmente o ateísmo é minoritário no mundo, embora componha importantes frações da população de muitos países (veja números de ateísmo em diversos países, países com o maior número de ateus e agnósticos e comentários sobre os números globais de descrentes e não religiosos). Todo mundo nasce ateu, ou seja, sem crenças em quaisquer deuses, e a maior parte das pessoas adquire essa crença devido à doutrinação em casa e na escola. Portanto, ao contrário do que acontece com a religião, alguns ateus sempre foram ateus, e outros se tornaram ateus. Mas ainda assim é claro que qualquer forma de ateísmo deve ter justificativas sólidas.

No que diz respeito à existência de qualquer entidade, a posição "default", ou padrão, é a de descrença: das infinitas entidades que podemos imaginar, cremos apenas na existência da diminuta fração de coisas a respeito das quais temos boas razões para acreditar que existem (do contrário, creríamos na existência de um enorme número de coisas cuja inexistência não podemos provar, como um bule de chá azul na órbita de Marte, e dragões invisíveis e indetectáveis por qualquer meio conhecido). Os agnósticos entendem que os argumentos em favor do teísmo não são suficientes para decidir a questão. Os demais ateus entendem que nenhum desses argumentos se sustenta, e em alguns casos também vêem importantes argumentos contrários ao teísmo. Para uma explicação mais detalhada, visite a área de argumentos.

3. Ateísmo e religião

3.1 É possível ser ateu e religioso?
Sim. O jainismo e algumas formas de budismo, por exemplo, não incluem o teísmo entre seus princípios.

3.2 Por que vocês só falam deuses, no plural, como se existisse mais de um?
Porque existe mais de um: Thor, Shiva, Brama, Amon-Rá, Zeus, Olorum, Tupã, são todos deuses. A lista é longa (vide http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_divindades ou http://www.godchecker.com/, por exemplo). Javé, o deus da mitologia judaico-cristã, é um deles. Existem diversos outros "deuses únicos", ou seja, deuses reputados únicos por seus seguidores, como Ahura Mazda, o deus do zoroastrismo. Se você é monoteísta -- ou seja, se acredita na existência de um único deus --, então já é quase tão ateu quanto nós, pois entende que todos os demais deuses são apenas criações humanas. Quando você entender por que não acredita em todos eles, saberá por que não acreditamos no seu também.

4. A Associação

4.1 Por que eu devo me associar?
Há vários motivos. Por exemplo, para lutar contra o preconceito e a discriminação. Além de empregos que foram perdidos ou não chegaram a ser ocupados, e diversas outras situações no dia-a-dia que foram e são vividas por muitos ateus e agnósticos, como por exemplo a associação que se faz entre criminalidade e ausência de religião ("só um sujeito sem deus no coração poderia ter estuprado e matado essa menina"), existem dados sólidos para mostrar como as pessoas se comportam com relação ao ateísmo.

Por exemplo, para medir índices de rejeição, há décadas o instituto Gallup vem perguntando aos norte-americanos se eles votariam para presidente em um indivíduo no geral bem qualificado e indicado pelo partido de sua preferência, caso ele fosse judeu, negro, mulher, etc. Nos Estados Unidos, os ateus têm hoje o maior índice de de rejeição entre todos os grupos pesquisados (53% não votariam em um ateu), bem à frente do segundo colocado (43% não votariam em um homossexual). A revista Veja encomendou uma pesquisa semelhante ao CNT/Sensus e descobriu que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente da República (para 14%, "depende"), 57% dariam o voto a uma mulher (para 29%, "depende"), 32% aceitariam votar em um homossexual (para 32%, "depende"), mas apenas 13% votariam em um candidato ateu (para 25%, "depende").

O quadro de rejeição aos ateus hoje no Brasil é pior do que o enfrentado nos Estados Unidos em 1978, quando 40% votariam em um ateu e 53% não votariam. Em outras palavras, no quesito de discriminação contra ateus estamos mais de 32 anos atrasados com relação aos EUA, que reconhecidamente é um país hostil ao ateísmo. Nosso quadro é ainda pior do que o enfrentado pelos negros no fim da década de 50, nos EUA: em 1959, 49% dos americanos votariam em um negro, e 46% não votariam. Essa pesquisa foi feita apenas 3 anos depois de a suprema corte determinar que a segregação racial em ônibus era ilegal. 

Mas será que essa rejeição não se limita a pruridos políticos? Em 2008, a Fundação Perseu Abramo perguntou a 2014 pessoas acima de 15 anos, em todas as classes sociais, o que elas sentiam normalmente ao ver ou encontrar desconhecidos de diferentes “grupos de pessoas”. O resultado foi o seguinte: empatados com usuários de drogas, os ateus estão em primeiro lugar no quesito "repulsa/ódio", sentimento despertado em 17% dos entrevistados. O segundo lugar é o de garotos de programa, com apenas 10%. Os ateus também estão em primeiro lugar na categoria "antipatia", sentimento despertado em 25% dos entrevistados. Novamente, um empate técnico com usuários de drogas (24%). Portanto, 42% das pessoas sentem antipatia ou coisa pior pelos ateus. Definitivamente, este não é um problema de mero conservadorismo eleitoral.

Apreciemos dois exemplos recentes. Veja-se inicialmente a declaração do cônego José Luiz Villac:

"alguém que rompeu com Deus no fundo do seu coração é um indivíduo visceralmente ruim. Os aspectos aparentemente bons de sua personalidade apenas encobrem essa malícia de fundo, que contamina todos os seus atos internos e externos."

"Ah, mas esse é só um religioso destilando preconceito para poucas centenas de fiéis na missa de todos os dias", dirá você... Tudo bem, então vejamos o que tem a dizer um dos maiores jornais do país sobre ateísmo, usando evidentemente de toda a imparcialidade disponível a um veículo midiático de peso e importância no país. O Especial de religiões de 2001 da Folha de S. Paulo descreve nove religiões nos termos mais elogiosos possíveis, chegando a defender o machismo exacerbado das crenças toltecas; omitindo-se sobre o fato de que cientologistas achacam judicialmente todos os seus críticos, gastam fortunas para ascender hierarquicamente no grupo e vez por outra deixam de receber cuidados médicos em função de suas crenças; esquecendo de citar que o espiritismo ensina seus seguidores a culparem a si próprios por absolutamente todo mal que lhes sucede; e sendo perfeitamente condescendentes com os indivíduos que entendem que uma bebida psicotrópica é "santa".

E como o especial descreve o ateísmo? Não com um texto jornalístico igualmente ufanista, mas com a crítica de um filósofo do século dezenove, que afirma

"O ateísmo, teórico e prático, é um vício profundo, ou, em termos mais claros, o vício radical do coração e do espírito humano. Século algum se viu livre dele, e o nosso está mais contagiado do que se imagina."

Esse é o estado atual do ateísmo em nossa sociedade: vilipendiado abertamente até pelos supostamente mais sérios veículos de comunicação. Imagine-se o que aconteceria se o mesmo fosse dito do judaísmo, das religiões afro-brasileiras ou qualquer outro grupo religioso! Mas no caso do ateísmo, o resultado é só silêncio. Diversos pedidos para retirar esse texto foram simples e facilmente rejeitados nos últimos anos.

Para lutar contra isso é preciso estimular as pessoas a saírem do armário, informar a população e criar uma interlocução oficial com a mídia, a sociedade e o poder público. É preciso haver um postulante com legitimidade para avançar causas na justiça. A ATEA pode cumprir todos esses papéis.

Além disso, há diversas questões no convívio social nas quais uma organização pode ajudar, como se vê na seção sobre ritos de passagem. E para aqueles que entendem que um mundo com mais ateus seria um mundo com menos mentiras, mais iluminado e com recursos melhor utilizados, uma associação também é o caminho certo.

Apesar de o IBGE se recusar a divulgar a quantidade de ateus e agnósticos apurada pelos censos, sabe-se por pesquisas particulares que eles compõem cerca de 1 a 3% da população brasileira. Em novembro de 2000, a revista Isto É publicou uma pesquisa Brasmarket que ouviu 200 mil eleitores em 449 cidades do País, apontando 1,4% de ateus. Uma pesquisa DataFolha de 2007 apontou 3%. São alguns milhões de descrentes no país, várias vezes mais do que o número de adeptos do judaísmo, umbanda e candomblé somados. É hora de nos unirmos para termos voz e visibilidade proporcional a esses números.

                                                                  


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