OS ARGUMENTOS EM FAVOR DO ATEÍSMO

Esta página contém um breve apanhado dos motivos para ser ateu.

Devido à questão do ônus da prova (vide abaixo), muitos dos argumentos em favor do ateísmo são refutações dos argumentos em favor da existência de deuses. Se todas as refutações são sólidas, então o ateísmo é a única posição consistente.

Todos os argumentos são apresentados em uma versão direta e com razoável profundidade.

Não pretendemos esgotar o assunto aqui. Há outros argumentos além dos que listamos, e todos eles podem ser desenvolvidos em maior detalhe e com maior riqueza. Apenas apresentamos pontos de partida para reflexão, e encorajamos a leitura de outros textos. Há diversas fontes de qualidade online, como por exemplo os presentes na excelente biblioteca do site infidels.org (em especial aqui), no about.com, e no ateus.net. Um dos poucos livros em português que traz uma compilação de argumentos é Ateísmo e Liberdade, de André Cancian.

O ônus da prova

Todos os teístas (isto é, as pessoas que acreditam na existência de uma ou mais divindades) afirmam existir alguma divindade, e por isso cabe a eles o ônus da prova dessa afirmação. Em milhares de anos de teísmo, essa prova ainda não foi encontrada, e não há sinal de que um dia venha a ser. É verdade que existem os chamados argumentos de existência divina, mas todos eles são falhos.

Todos os teístas (isto é, as pessoas que acreditam na existência de uma ou mais divindades) afirmam existir alguma divindade, e por isso cabe a eles o ônus da prova dessa afirmação. Em milhares de anos de teísmo, essa prova ainda não foi encontrada, e não há sinal de que um dia venha a ser. Os chamados argumentos de existência não resistem à crítica.

Há outros motivos para que o ônus da prova caiba aos teístas. De todas as coisas cuja existência se pode conjeturar, tudo indica que apenas uma ínfima minoria existe de fato. Sabemos que existe uma pessoa chamada Britney Spears, mas não deve haver uma pessoa idêntica a ela em todas as suas moléculas, com a exceção de 17 fios de cabelo, que são brancos. Também não deve haver uma Britney com o dobro do tamanho da original. Da mesma maneira, não esperamos a existência de um Sol idêntico ao nosso, mas com uma cara sorridente desenhada em sua superfície, ou uma estátua da ilha de Páscoa, em tamanho real, esculpida em diamante.

Em suma, para cada coisa que existe de fato, há infinitas outras que não existem. A existência, portanto, é uma qualidade extremamente rara dentre todas as entidades que se pode imaginar. Tomando uma entidade imaginada ao acaso, a probabilidade é de que ela não exista (e se parece não ser assim é porque nossa imaginação costuma se restringir às coisas que existem).

Assim, se assumirmos que devemos aceitar a existência de alguma coisa até que sua inexistência seja provada, então certamente vamos chegar à conclusão de que existe uma Britney Spears roxa e outra com bolinhas azuis, já que não podemos provar a inexistência delas (talvez as Britneys coloridas não se mostrem a qualquer um, e tenham propósitos misteriosos). Essa atitude certamente nos levará a uma enorme quantidade de erros de avaliação. Vamos acertar com muito, muito, mas muito mais frequência se tomarmos a inexistência como a posição “default” (padrão), e só aceitarmos a existência se ela nos for provada.

De fato, é isso que fazemos todos os dias, em especial no que diz respeito a alegações extraordinárias. Se alguém afirma que consegue flutuar no ar sem ajuda de equipamentos, não será levado a sério antes que possa provar o que diz. O mesmo se dá com divindades. Se você é monoteísta, também não leva a sério as alegações de existência de todos os demais deuses além do seu. Bertrand Russel tem uma famosa passagem a respeito da inversão do ônus da prova:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade.

Uma outra posição possível é imaginar que nem existência nem inexistência estão decididos enquanto não aparecerem as provas de qualquer um dos lados. Assim não se assume uma posição padrão, e a questão fica em suspenso. Essa é uma das posturas que leva ao agnosticismo, o que segundo as definições que adotamos aqui, é também uma forma de ateísmo (vide as definições na página de Perguntas e Respostas).

“Ninguém foi capaz de provar a sua inexistência, portanto o deus X existe.”

Esse argumento tenta inverter o ônus da prova (vide acima). Com ele, podemos provar a existência de absolutamente qualquer coisa: “ninguém foi capaz de provar a inexistência do coelhinho da páscoa, então ele existe”. Se um argumento “prova” a existência de coisas inexistentes, então ele não prova nada. Se esse “argumento” supostamente prova a existência de coisas inexistentes, é porque ele não é válido.

Inverter o ônus da prova pode parecer um pedido justo, mas sabemos que não existe prova de inexistência para grande parte das coisas inexistentes, como todas variações em torno da Britney Spears que citamos no argumento do ônus da prova. E os próprios teístas aceitam que o ônus da prova é de quem afirma a existência quando confrontados com pessoas que crêem em outros deuses. Os cristãos também não conseguem provar a inexistência dos deuses do hinduísmo, por exemplo, mas isso não os faz aceitar a existência de Shiva. Portanto, não deve esperar o mesmo de um ateu, com relação a qualquer deus que seja.

“Sabemos da existência do deus X através da fé”

Com muita frequência se afirma que a fé dá provas, ou que a própria fé é uma prova. Mas é fácil perceber que ter fé é somente uma atitude, interna e pessoal como todas as atitudes. Ela nada nos diz sobre a realidade externa ao indivíduo. Se eu tiver fé que o Papai Noel existe, isso mostra que ele existe ou que eu me recuso obstinadamente a aceitar sua inexistência?

A fé não dá respostas, ela apenas impede as perguntas. “Ter fé” é apenas uma expressão bonita para o que significa apenas e tão-somente desligar-se da realidade. E as próprias pessoas de fé reconhecem que ela não prova nada quando são confrontadas com fés diferentes. Atualmente existe cerca de um bilhão de muçulmanos no planeta, muitos deles com fé profunda no islamismo. Mas isso não parece fazer a menor diferença para os dois bilhões de cristãos, e vice-versa. Se a fé apontasse a verdade com um mínimo de segurança, ela não estaria dirigida a dois sistemas incompatíveis de crenças — e muito menos aos milhares de deuses e religiões que existem e já existiram.

“Sei que o deus X existe porque ele faz (ou fez) milagres”

Como muitas supostas provas de existência divina, esta contém uma hipótese oculta — ou seja, uma hipótese que precisa ser verdadeira para que a prova funcione, embora isso não seja dito explicitamente. A hipótese oculta aqui é a de que só deuses fazem milagres — e, em especial, o deus cuja existência se está tentando provar. Um milagre poderia provar a existência de Thor, Amon-Rá, Tupã ou qualquer outro deus. E se a mula-sem-cabeça também for milagrosa, então os milagres poderiam provar a existência da dita mula.

Além disso, é preciso considerar que a afirmação de que existem milagres também é extremamente problemática, essencialmente por dois motivos. O primeiro é a chamada terceira lei de (Arthur C.) Clarke: “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de mágica”. Em outras palavras, qualquer candidato a milagre pode ser apenas o produto de uma tecnologia avançada, mas não milagrosa. Daí vem o ditado de que “para os peixes do aquário, quem troca a água é Deus”.

O outro problema com os alegados milagres é que simplesmente não existe nenhum caso cuja comprovação seja tão sólida quanto a necessária para uma prova tão importante quanto essa. Eventos que se imaginam ser milagrosos sempre podem na realidade ser o produto de mentiras, enganos, desconhecimento de leis naturais, informações incompletas ou errôneas, ou ainda uma combinação desses fatores.

“Se o deus X não existe, de onde veio [X]?”

Alguns tipos de argumentação são sólidos apenas na aparência são chamados de falácias. A afirmação acima constitui a falácia da ignorância: só porque se ignora a existência de respostas alternativas a um problema, isso não significa que possamos adotar a resposta que bem entendemos. Por exemplo, até muito recentemente na história humana, era perfeitamente lícito usar argumentos como “mas se Zeus não existe, de onde vêm os raios?”. Aqui fica claro que o desconhecimento de meteorologia e eletromagnetismo não é uma prova da existência de Zeus. O mesmo se dá quando o argumento se refere a outros deuses, ou a outros fenômenos de origem desconhecida para o interlocutor.

Este é um dos mais populares “argumentos” pela existência de deuses, embora os valores de Y dependam muito do lugar e da época. Fenômenos climáticos e sísmicos já estiveram muito em moda, mas atualmente estão em baixa. Hoje em dia os mais comuns são “o homem”, “a vida”, “a Terra” e “o universo”, e o motivo é claro: já é de conhecimento geral que existem explicações 100% naturais e até triviais para o clima e os terremotos.

Deuses sempre foram chamados para explicar o desconhecido, e todo deus que cumpre essa função tem um nome: deus das lacunas. Isso porque esse deus preenche as lacunas do conhecimento de uma época. O problema é que à medida que o conhecimento científico avança, ele inexoravelmente preenche essas lacunas, tomando lugar dos deuses e deixando cada vez menos espaço para eles. Quem acredita no divino porque não sabe de onde veio a vida está agindo de maneira idêntica a quem acreditava no divino por não saber de onde vem a chuva. Só muda o objeto da ignorância. Dar nome de “Deus” à própria ignorância não parece ser uma boa idéia.

Além disso, existe o agravante de que já existem respostas bastante sólidas, apoiadas em um amplo espectro de evidências independentes que se confirmam mutuamente, a respeito da formação de nossa espécie, assim como de estrelas e planetas, inclusive a Terra e o nosso sol. A ciência do século vinte foi extremamente útil para dar as primeiras respostas sobre o surgimento da vida e do universo, que permanecem hoje na fronteira do conhecimento. Assim que essa fronteira for rompida, se o passado nos serve de guia, parece que o argumento da ignorância continuará popular e as pessoas que crêem em deuses se agarrarão a outro mistério ainda não desvendado, perfeitamente imunes às incontáveis lições que a história nos deu sobre os cada vez menores deuses das lacunas. O fato de os deuses encolherem quando a ciência avança é um dos diversos motivos pelos quais muitos ateus entendem que ciência e religião são incompatíveis.

“Se o deus X não existe, a vida não tem sentido.”

Poucas pessoas notam, mas isso não é sequer um argumento: é apenas a expressão do desejo pessoal de que esse deus exista para dar sentido à sua vida. E não se deve confundir como desejamos que seja o mundo com a maneira como ele realmente é. Quem pensa assim está apenas afirmando que sua vida pode não ter sentido. A afirmação nada nos diz sobre a existência desse deus. Analogamente, quem diz “se não existe um milhão de dólares na minha conta, então a vida não tem sentido” definitivamente não está provando a existência daquele milhão de dólares.

Esse tipo de pensamento se chama wishful thinking, algo como “raciocínio desejoso”, que ocorre quando o desejo de que certa coisa seja verdade acaba levando à crença de que ela seja verdade. Além de incorrer em wishful thinking, este raciocínio também peca por assumir como verdadeira a idéia de que a vida não tem sentido sem deuses. O fato é que existem centenas de milhões de ateus no mundo, e nada indica que suas vidas estejam vazias de sentido. Aqui também pode estar em curso o preconceito contra os ateus, ou também o fato de que a vida potencialmente sem sentido é a do próprio indivíduo que crê.

“Se você acreditar na existência do deus X, poderá ir para o paraíso, caso ele exista; caso ele não exista você não tem nada a perder acreditando nele. Por outro lado, se você não acreditar e ele existir, irá para o inferno.”

Esse é mais um “não-argumento”, pois nada nos diz a respeito da existência de deuses. É apenas uma consideração calculista de como agir com relação ao ateísmo, considerando custos e benefícios. Ainda que fosse verdade que é vantajoso acreditar em deuses (e não é), os ateus estão em busca imparcial da verdade, e não de mentiras com grandes potenciais de ganho.

Mas analisemos o caso mesmo assim: será o teísmo realmente mais vantajoso do que o ateísmo? Essa proposta se chama aposta de Pascal, e está cheia de falhas. Em primeiro lugar, Pascal desconhecia ou preferia ignorar a existência de muitos outros deuses além da divindade específica do cristianismo. Como a aposta não indica em qual deus crer, o crente ainda tem uma escolha muito problemática. Se ele escolher crer no deus X para evitar o inferno I, ambos inexistentes, pode ser que ele acabe indo para o inferno I’ do deus X’, esses bem reais. Ou seja: a aposta pode sair pela culatra porque o indivíduo acreditou no inferno errado, motivo pelo qual esse problema é conhecido por “evitar o inferno errado”.

Além disso, não é verdadeira a idéia de que nada se perde acreditando em um deus que não existe. As pessoas dedicam enormes quantidades de tempo, dinheiro e energia em atividades ligadas a essa crença, isso para não falar nas pessoas que morrem ao rejeitar a medicina em favor de curas milagrosas, nas guerras religiosas que sempre assolaram a humanidade, nas Cruzadas, a Inquisição, perseguições contra religiosos e ateus por motivos religiosos, o sofrimento dos indivíduos por desobedecer entidades que não existem, a discriminação contra mulheres e homossexuais… a lista é longa. E ainda que nada disso existisse, se é verdade que para o religioso nada se perde acreditando em mentiras, então quem tem sérias explicações a dar é ele, e não o ateu.

Caso o deus em questão seja onisciente, temos mais um problema pois ele também teria que ser ingênuo ou burro o suficiente para aceitar como válida uma crença formada a partir de um cálculo de conveniência. E mais: para a aposta funcionar, seria necessário que conseguíssemos acreditar naquilo em que não acreditamos, por um puro ato de vontade. Você seria capaz de acreditar em papai Noel se isso supostamente significasse que você vai ganhar um presente?

Os problemas não cessam aí, pois o argumento assume que só existem deuses do tipo que recompensa a crença e punem a descrença. Pode muito bem ser que existam deuses que valorizem a intelectualidade e a busca honesta da verdade, e que punam a fé, e recompensem a busca honesta pela verdade. Nesse cenário, a melhor aposta é mesmo descrer.

Por fim, caso existisse mesmo um deus que punisse seres humanos eternamente por “crimes de opinião”, independentemente de quão boas e justas tenham sido suas vidas, então esse não seria um deus digno de ser adorado.

“Todo mundo acredita em Deus. Todas as civilizações têm religião. Isso mostra que Deus existe.”

Não, não mostra. Uma mentira repetida mil vezes não vira verdade, assim como um erro muito popular não se torna um acerto. Além disso, é falso que todas as civilizações têm religião (a tribo dos Pirahãs, por exemplo, aqui mesmo no Brasil, não tem crença em nenhuma divindade. Curiosamente, um missionário inglês destacado para convertê-los acabou se tornando ateu.) e é obviamente falso que “todo mundo” acredita em algum deus — quanto mais no deus dos cristãos. Para cada cristão existem hoje dois não-cristãos. Se muita gente tem a impressão de que não existem ateus é porque muitos descrentes se sentem forçados a ficar “no armário” devido ao preconceito e à discriminação que sofrem. Os cerca de 1,4% de ateus no Brasil correspondem a quase o triplo do número de umbandistas, candomblecistas, judeus e budistas juntos.

A idéia de que a popularidade de uma crença prova sua veracidade, ou ao menos é um bom indicador, também é uma falácia. Chama-se ad populum. Muitas crenças bastante populares hoje estão desacreditadas, tanto sobre a natureza como sobre a moral: a idéia de que é certo escravizar ou subjugar certos grupos de pessoas e a idéia de que a Terra é plana ou de que o Sol gira em volta dela são alguns dos exemplos mais conhecidos. O próprio cristianismo já foi uma crença de um pequeno grupo de pessoas em uma época em que os deuses do Olimpo faziam muito mais sucesso. Utilizando o ad populum, seríamos levados a concluir que naquela época Zeus e Hércules realmente existiam, já que a crença neles era popular.

“Deus é como o amor: você não pode provar que ele existe, mas sabe que ele está lá”

A analogia é realmente muito boa, mas só prova que, assim como o amor, esse deus só existe dentro da cabeça das pessoas, e não fora.

Talvez esse argumento sirva para deixar bem claro que nem tudo que sentimos intensamente existe fora de nós. O mesmo vale para todos os outros sentimentos e sensações que conhecemos: ódio, angústia, felicidade, e tudo que vem dos nossos sentidos. Esses fenômenos povoam nossa mente e nosso mundo,e sem dúvida são da maior importância para nós, mas isso não quer dizer que eles vão além das fronteiras do nosso sistema nervoso. O mesmo se dá com os deuses.

“Existem muitas coisas que não podemos ver, mas sabemos que existem: o ar, as bactérias, os átomos, etc. O mesmo se dá com Deus.”

A questão da existência não tem nada a ver com a visão: trata-se de provas ou ao menos evidências. E há muitos tipos de evidências além das visuais. Temos todos os sentidos além da visão, e ainda a lógica e uma enorme variedade de aparelhos e técnicas que nos ajudam a coletar evidências e provas sobre o ar, as bactérias, os átomos e todas as coisas cuja existência damos como certa. Só na esfera místico-religiosa existem entidades cuja existência há quem aceite pacificamente sem evidências, ou mesmo apesar de evidências contrárias: deuses, anjos, espíritos, fantasmas, almas, “energias”, etc.

Pode-se mostrar a existência do ar através de qualquer um de uma série de experimentos simples. O mesmo vale para bactérias e átomos. Só temos certeza de que eles existem em virtude dos resultados conclusivos desses experimentos, que podem ser reproduzidos em qualquer lugar do mundo, sempre com os mesmos resultados, por pessoas de qualquer crença. Mas no caso de divindades, esses experimentos simplesmente não existem, ou são apenas experiências internas que não podem ser reproduzidas por outras pessoas.

ARGUMENTOS RELATIVOS A DEUSES ESPECÍFICOS

Os argumentos acima são válidos para todos os tipos de deuses.

Abaixo argumentos relativos a apenas alguns tipos de deuses.

Sobre deuses que criam almas e/ou que cuidam do seu destino após a morte dos indivíduos

Esses deuses não existem porque almas não existem. Na época em que foram escritos a bíblia e o corão, por exemplo, virtualmente nada se sabia sobre o universo. Acreditava-se que a Terra era o centro do universo, que todas as formas de vida haviam sido criadas simultaneamente em suas formas atuais em um passado recente, e que a matéria vida se distingue pela presença de uma certa “força vital”, cuja fonte era usualmente associada a uma ou mais divindades. Isso fica bem claro na mitologia cristã sobre o surgimento do homem, que usa expressões como “fôlego da vida” ou “sopro da vida” para descrever o que teria sido insuflado nas narinas de Adão para transformá-lo de barro em homem. O texto hebraico usa a palavra ruah (respiração ou espírito), e o em grego utilizou-se πνοην (pnoen), uma conjugação de πνεύμα (pneuma), que não por acaso é uma raiz que ainda hoje utilizamos para nos referir a ar — em português, inglês e muitas outras línguas. Como se notava que a morte sempre causava o fim da respiração, e vice-versa, imaginou-se que a respiração era a própria essência da vida. Pneuma ainda hoje significa espírito ou fantasma em grego.

Hoje em dia, qualquer criança que passe por uma boa escola aprende já no ensino fundamental que a Terra não é o centro do universo, que as formas de vida que conhecemos surgiram em instantes diferentes ao longo de bilhões de anos, que há séculos se sabe que a força vital não existe, e que nada há nos seres vivos além dos elementos químicos que também estão presentes nos compostos inorgânicos que formam o restante do universo, tais como hidrogênio, carbono, oxigênio, nitrogênio, etc. Esse é conhecimento corrente básico e consensual para o qual apontam uma infinidade de evidências científicas acumuladas ao longo de muitas décadas de experimentação. No entanto, infelizmente vivemos uma epidemia de ignorância científica em que grande parte da população desconhece os elementos mais básicos do conhecimento disponível. Relativamente poucas pessoas conseguem apontar corretamente a causa das estações ou o tempo necessário para a Terra dar uma volta completa em torno do Sol, por exemplo.

Muitas pessoas percebem que nosso cérebro é responsável pelo que somos: nossa personalidade, nosso humor, nossas memórias, nossos julgamentos morais, nossas inibições, nossos pensamentos e decisões. Uma pancada na cabeça pode acabar com sua memória. Um copo de álcool pode eliminar suas memórias e suas inibições, e alterar radicalmente seu senso moral. Antidepressivos alteram nosso humor. Doenças neurológicas afetam nossa personalidade e a maneira de nos relacionarmos com os outros. No entanto, essas pessoas não se dão conta de que esses fatos são incompatíveis com a ideia de uma alma imaterial ou transcendente que seria a fonte de nossa consciência. A alma não pode ser responsável pela memória, pois álcool, sedativos e pancadas na cabeça não poderiam atingir a alma. Pelo mesmo motivo, a alma não pode ser responsável por nosso humor, personalidade, consciência ou julgamentos morais. De fato, se houvesse qualquer influência externa de uma alma comandando o cérebro humano e seus processos, as faculdades de medicina precisariam ensinar teologia dentro dos cursos de neurologia. Mas não é o caso.

Em suma, até as pessoas minimamente bem informadas sobre o funcionamento do corpo humano já possuem o conhecimento necessário para perceber que toda nossa vida mental surge e se processa em nosso sistema nervoso, e não em uma fonte externa a ele, o que significa que almas não existem. É claro que isso não significa que não existe nenhum deus, apenas que não existem deuses que cuidam de almas. Por outro lado, esse fato dá um golpe mortal no cristianismo e no islamismo, por exemplo, cuja essência está nas ações necessárias para dar bom destino a essa peça de ficção chamada alma ou espírito. Como não existem almas, não existe nada a ser “salvo”, nem céu, nem inferno, tornando sem sentido toda a teologia do monoteísmo ocidental. Bem poucas pessoas estariam dispostas a crer em qualquer divindade nessas condições.